domingo, 30 de outubro de 2011

Douro...


Cai o sol nas ramadas.
O sol, esse Van Gogh desumano...
E telas amarelas,calcinadas,
Fremem nos olhos como um desengano.

A cor da vida foi além de mais!
Lume e poeira, sem que o verde possa
Refrescar os craveiros e os tendais
De uma paisagem mais secreta e nossa.

Apenas uma fímbria namorada,
Vermelha e roxa, se desenha ao fundo
O mosto de uma eterna madrugada
Que vem do incêndio refrescar o mundo.

Miguel Torga

domingo, 16 de outubro de 2011

BAIRRO RECONQUISTADO

Niguém viu a beleza das ruas

até que , pavoroso, num clamor,

se precipitou o céu esverdeado

num abatimento de água e de sombra.

A tempestade foi unânime

e o malquisto aos olhares foi o mundo,

mas quando um arco abençoou

a tarde com as cores do seu perdão

a um cheiro de terra molhada

animou os jardins,

pusemo-nos a andar entre as ruas

como uma herdade recuperada,

e nos cristais houve generosidades de sol

e nas folhas luzentes

disse a sua trémula imortalidade o Verão


Jorge Luís Borges

domingo, 9 de outubro de 2011

Criação

Criar é como cozinhar. Os ingredientes sempre estiveram disponíveis . Basta combiná-los de maneira diferente.Ninguém é original. E quem se acha original padece de uma umbilical presunção rapidamente afastada pelos dados objectivos do real.

Verdadeiramente original foi Deus para as religiões e energias para as ciências. Deus é um atleta.Criativos somos todos. Originais só os deuses atletas.

Quando alguém pensa que é original esquece que existem mais sete mil milhões de seres fisiologicamente e anatomicamente iguais a ele.

E as almas imitam-se? Não. Transmutam-se entre o ser e a razão, o ter consciência de si e ter o sentimento do outro.Se o quotidiano é fisiologicamente monótono por sua vez o essencial é intemporal e fora do espaço.

Criar é recriar. Criar não vem do nada. Algo existe: No mundo das ideias e das experiências. João Lobo Antunes num trabalho notável sobre José Cardoso Pires relata a questão da escrita branca no ensaio “ De profundis, valsa lenta”.

E tudo que existe é susceptível de recriação? Ou terá que existir uma supra-identidade que fará a aferição do que é recriável e do que não é recriável?

Toda a realidade , que tem uma insofismável vertente irracional expressa na violência, é susceptível de ser abordada.

As formas de arte contemporânea através das suas vertentes expressivas visam a catarse de um mundo , em que a violência não sendo compreendida ,é aceite e quando muita tentada a ser explicada ou pelo menos demonstrada.

A este propósito Hitchcock dizia que o cinema é como um pedaço de bolo. Uma metáfora que resume o que é o cinema: Fazendo parte da vida pode ser facilmente autonomizável. Também Hitchcock gostava de culinária na vertente das sobremesas.

Todas as formas de arte não existem para nos servir. Tal como a realidade não conspira para sermos plenamente felizes. Se assim fosse existiria um directório , à boa maneira de Aldous Huxley, que nos imponha uma ideia de arte e de vida. As sociedades consumistas oferecem esse catálogo. Só escolhemos o que nos agrada, porque lidar com o desagradável torna-nos inseguros.

Ou seja, não é a realidade e a criação que tem de se adaptar a nós. Somos nós que temos de recriar a realidade. A isso chama-se o nascimento de uma obra de arte.

A angústia do artista, que é um recriador , é estar sempre em confronto com a realidade: ou se atrasa ou avança sobre ela. Nestes casos, não suportando a mesma aliena-se nos mundos virtuais . Se realmente a aceita e a acompanha, transforma-a.

Contrariando Óscar Wilde, a arte pode ser perfeitamente útil.Do nascimento da estética , a ética será sempre a baby -sister.

sábado, 21 de maio de 2011

Frases...


Observa e vê...
Para e escuta...

Não é um comboio...
E já passou...

O que é?...

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Um Universo Lynchado



A hipermodernidade é caracterizada pelo excesso de comunicação, pelo mundo da libertação individual face às ideologias. Somos todos sujeitos e objectos das nossas mundividências...


Lynch desconfia deste mundo perfeito...Assume o outro lado do espelho de Narciso... O bizarro não é uma categoria conceptual, é um modo reflexo, um efeito perverso da crença da omnipotência, omnipresença e omnisciência do homem hipermoderno...que Lynch genialmente manipula através de uma realização fílmica soberba...


O consciente faz implodir o inconsciente e torna o subconsciente o doce tónico da sua fragmentação em universos situados fora do sistema racional...


As pulsões vitais de Eros e Thanatos diluem-se em experimentalismo visuais e sonoros, que desafiam, provocam o espectador comodamente sentado...crente na hipermodernidade...


Nos filmes de David Lynch, o óbvio não existe...Existe um universo simbólico " lynchando", um violino deliberadamente desafinado para nos fazer ver que nada é, mas que vai sendo...


Confrontarmo-nos com essa dimensão plástica e estética de Lynch é obter a catarse da nossa impotência existencial e que o homem tecnologicamente avançado, não passa de um primata em busca da civilização perdida...


Eis que o homem elefante é a mais doce das criaturas subjugada por uma duna extraterrestre de preconceito...Eis que a estrada perdida...não tem fim ....face aos corações selvagens que procuram a redenção na aura de luz...de um Eraser...Para tudo esquecer e voltar a reiventar tudo de novo...


Absurdo?


Absurdo não é a interrogação, é a falta dela ....